Académica francesa alerta Europa para ameaça do "domínio linguístico" de Trump e da extrema-direita

Académica francesa alerta Europa para ameaça do "domínio linguístico" de Trump e da extrema-direita

Cécile Alduy alertou para o "domínio linguístico", que tem causado "um estado de paranoia" nos Estados Unidos desde a reeleição de Donald Trump. O desabafo é feito no livro "D'abord ils sont venus chercher les mots" - "Primeiro vieram buscar as palavras", em português.

Nicole Russo - RTP / Adicionar como fonte informativa
Neil Hall - EPA

Professora na universidade de Stanford, na Califórnia, Cécile Alduy descreve uma “situação muito grave” e avisa sobre o risco de contágio do continente europeu.

O relato inclui exemplos de como as universidades norte-americanas se viram obrigadas a adaptar-se aos decretos e exigências de Donald Trump, nomeadamente com a proibição da utilização de 250 termos em documentos oficiais.
O uso de palavras como igualdade, género, vacina ou crise climática foi desencorajado pelo governo dos Estados Unidos, de forma a combater aquilo que este considera ser uma “cultura progressista”.
“Este livro procura relatar o forte impacto das decisões da Administração Trump nas nossas vidas, nas nossas consciências, na nossa forma de falar e de trabalhar, e o que revelam sobre a ideologia que está por trás”, acrescentou à Agence France-Presse.

Especialista em discursos de extrema-direita, a professora com quase 30 anos de carreira no ensino assumiu que teve de mudar hábitos: “Pela primeira vez, ponderei cada palavra como se qualquer uma delas pudesse tornar-se uma prova contra mim. (…) A autocensura funciona como uma estratégia pessoal de sobrevivência”.

“Pensava estar imune porque conheço bem esta ideologia, os seus discursos e os seus programas, mas quando se aplica na vida real, é um choque emocional”, assumiu.

Cécile Alduy considera que a “ofensiva ideológica” se mantém “invisível” noutros países, por se tratar de iniciativas jurídicas “muito locais” nos Estados Unidos.

No entanto, o risco de expansão está mais perto de ser uma realidade, com o favoritismo de Marine Le Pen, candidata da extrema-direita nas eleições presidenciais de França, agendadas para abril de 2027, considera.

A autora apresenta o novo livro como “um aviso” para os países “minados pela polarização artificial da opinião pública, sob o efeito das redes sociais e das suas bolhas algorítmicas”.
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